Acredito que todos os instrutores ou professores, independente da área, escola ou centro de treinamento, já devam ter recebido essa pergunta alguma vez na vida. Na verdade, como tudo na vida, precisamos sempre avaliar os prós e contras de cada opção.
Trabalho com treinamento há algum tempo, e hoje mesmo recebi essa pergunta de um aluno. Não adianta responder a ou b sem argumentar, demonstrando as opções de acordo com a situação do aluno.
O conteúdo, a forma de transmissão e a capacidade de assimilação do indivíduo são chaves para que haja o benefício maior do aprendizado de fato.
Tanto em um bom curso quanto em um bom livro, o conteúdo é a premissa básica. Por conteúdo entendemos se ele aborda de forma satisfatória os principais pontos, se ele está organizado, se ele possui um bom balanço entre teoria + exemplos + prática(favorecendo exemplos e prática), se ele respeita pré-requisitos, se ele promove o aprendizado guiado e incremental, se ele tem como premissa a acessibilidade possível(e cabível) para que então haja a cognição esperada em cada assunto abordado. Enfim, vamos pensar apenas sobre um livro e um curso de mesmo nível, ou então, para facilitar, pense que eles são simplesmente o que de melhor o mercado oferece no assunto! Em se tratando de conteúdo, um livro está limitado a ter apenas o conteúdo escrito, o qual deve ser lido, interpretado e assimilado apenas pelo leitor. Claro, existem outros formatos de conteúdo e extras, como um cd-rom, simulados, mais exemplos, mais exercícios. Porém, você continua não amparado nesse processo.
Já um curso possui além da apostila - que realiza o papel de um livro, porém normalmente com maior efetividade por direcionar o conteúdo de forma mais prática, na minha opinião - um instrutor especialista e um ambiente de aprendizado preparado para fornecer uma experiência de ensino que extrapola o livro em vários sentidos. O ambiente de aprendizado é composto principalmente por ferramentas a serem usadas pelo estudante - como computador e softwares previamente configurados, no caso de cursos de tecnologia. Claro, existem outras ferramentas como quadro branco e projetor, porém são ferramentas do instrutor e totalmente dependentes da habilidade dele. O instrutor é um facilitador de ensino, que possui a capacidade de transmitir o conhecimento de forma acessível, possui habilidade de traduzir o difícil para fácil, além de dominar o assunto em questão. Vai além. Fornece opinião sobre formas de uso do conhecimento, casos reais de aplicabilidade. Mostra experiência inclusive em assuntos relacionados. Ajuda individualmente alunos com dificuldades pontuais, inclusive extra classe. O instrutor provê diversos de outros cursos relacionados ou para continuidade, literatura adicional, fórums, listas de discussão, quais são os sites mais indicados para extender o conhecimento além do curso... Ele é uma forte garantia de aprendizado do aluno. Ele auxilia de fato o processo de assimilação de conteúdo do aluno, realizando paralelos, demonstrando com mais exemplos, falando de forma acessível e direta, usando o quadro para desenhar esquemas, figuras, demonstrar código. Mostra exemplos sendo construídos para determinada situação usando um projetor. Sabe conduzir uma turma de forma que a aula seja algo prazeroso, vibrante, e não um encontro tedioso, sonolento, chato. Encoraja o aluno a tentar alternativas sobre os exemplos. Estimula a participação do aluno e o entrosamento com os demais. E, inclusive, é uma referência que acaba permanecendo mesmo após o final do curso.
Por outro lado, com apenas o livro você está sozinho, todo o processo de aprendizado depende de quanto você consegue assimilar do novo conteúdo sem auxílio de alguém e, ainda por cima, certificar se seu entendimento está correto. A pergunta é: você é autodidata suficiente em um assunto? Se for, um livro pode ser uma alternativa ao curso. Você possui alguma experiência prévia em alguma tecnologia, MESMO? Nesse caso, o livro pode ser novamente uma alternativa. Porém, sem alguma dessas situações, o curso é o caminho. E sempre será o caminho mais seguro, sem dúvidas.
Existe outro fator: custo. Porém, eu gosto de chamar, nesse caso, de retorno de investimento. Claro, um livro normalmente é mais barato que um curso. Se não for, desconfie do curso, pois um bom curso possui custos(instrutor, ambiente, material, ...) que não podem e não devem ser injustamente comparados com os custos de um processo de fabricação em série de um livro. Além de você receber o conteúdo de forma a facilitar ao máximo o aprendizado, o curso vai focar e acelerar muito mais seu conhecimento e sua ida ao mercado. Um curso inclusive fornece um certificado de conclusão, que pode e deve ser utilizado em seu currículo.
Martin Fowler fala em seu blog a respeito de seu novo livro de DSL, que virá em formato DuplexBook. Um livro em formato tutorial e outro em formato referência. Ele também comenta que um bom livro tutorial deve ter em torno de 200 páginas. Já o livro de referência deve ser um índice com todos os assuntos, detalhando cada um deles em uma seção específica(ex.: um "man page"). Eu acredito que o formato "livro de referência" realiza um bom papel por aprofundar tópico a tópico fornecendo todas as possibilidades de um comando, ou de uma determinada configuração. Um curso de OO/UML + um livro de referência no assunto, por exemplo, é um combo ideal.
E, no final das contas, outros fatores que acabam pesando no processo é a dedicação do aluno em estudar e sua capacidade cognitiva. Não quero me aprofundar nesses tópicos que, apesar de relacionados e importantes, devem sempre estarem presentes, independente da estratégia de aprendizagem.
Desde já digo: não realizei esse post para vender algum curso, mesmo que eu trabalhe para uma empresa de treinamento! Meu objetivo maior foi demonstrar as vantagens que um bom treinamento possui sobre um livro. Novamente, como concluí acima, acho que o livro usado como referência é um complemento ideal para um curso.
Então, gostaria de discutir algum ponto referente ao assunto? Mande comentários! :)
Enfim, entendeu melhor como funcionam essas duas estratégias? Pense e avalie, não deixe o barato prejudicar seu lado profissional. Faça do seu aprendizado algo consistente, sua carreira agradece!
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Sobre o autor: Julio Viegas, Instrutor Java Globalcode e Arquiteto de Software e Sistemas no SPC Brasil, possui mais de 10 anos de experiência em na área de tecnologia como instrutor(ministra aulas de Java desde 2001), arquiteto, consultor e desenvolvedor de sistemas de software. Colaborador ativo no RSJUG e outras comunidades. Joga videogame e constrói bugigangas eletrônicas em seu tempo livre. Certificações SCJP 5, SCJA 1, SCEA 1 e 5, SCDJWS 1.4 e 5, SCWCD 1.4, SCBCD 5, Sun Certified Trainer. Mais em meu site pessoal.
Agradeço ao colega Fabrício Cazzaniga do SPC Brasil, que teve a paciência de ler e revisar esse post, corrigindo erros de português. Os que já me conhecem sabem que eu sou como Lobato, odeio acentos! :)
quarta-feira, 29 de julho de 2009
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14 comentários:
Oi Júlio,
parabéns pelo seu texto. Suas opiniões foram muito bem colocadas.
Concordo completamente com o seu post, sem ressaltar nenhum ponto, falando tanto como aluno como professor!
Espero mais posts de sua autoria.
Júlio, excelente post!
Lendo seu texto fiquei pensando no que nosso falecido, homenagiado e companheiro de instrutoria da Sun dizia: informação != conhecimento. Em portugues claro: informação é TOTALMENTE diferente de conhecimento.
Transformar o que tem em um livro em conhecimento é arte do leitor, transformar a informação de um método de ensino + apostila em conhecimento também é arte do aluno, só que com a vantagem de ser orientada por alguém que vai encurtar o trajeto, fazer parte da sua comunidade e acrescentar experiências práticas, mostrando sempre que possível, a melhor forma que encontrou para resolver determinado problema. Este é o maior extrato da informação.
Julio, ótimo post !
Certa vez tivemos aqui na empresa uma discussão e o tma da conversa era justamente esse, alguns que se julgavam autodidatas o suficiente pra trocar um treinamento por um livro, e sem experiencia prévia nenhuma.
Acredito que primeiro um treinamento, depois uma sequência de boas literaturas para aprimorar o que foi visto, este na minha opinião é o melhor caminho.
Júlio, parabéns!
O seu texto é muito útil para elucidar pessoas que estão com dúvidas em relação a um curso/livro.
Concordo com você em gênero, número e grau. É muito importante termos explanações desse tipo. Apenas acho que essas dúvidas são geradas pelo número de entidades que vendem apenas o certificado. O papel da entidade/instrutor que você mencionou é o fluxo ótimo do processo, mas não o fluxo real.
Parabéns novamente pelo post!
Foi a minha primeira leitura aqui e fiquei muito contente com o seu conteúdo e animado para ler o restante do material publicado.
[]s
Éberson
@Rafael Vou tentar manter uma regularidade de posts por aqui! Obrigado(novamente) pelo RT! :)
@Vinicius Com certeza, informação != conhecimento. O fato é que o curso é um mecanismo de transmissão de informação que promove o conhecimento além de uma leitura.
@Matheus Acredito também no autodidata. Porém todo autodidata é alguém mais confiante que o comum, e esse excesso pode tornar-se um perigo. Assumem-se inverdades ou mesmo assimila-se a informação parcialmente, ou ainda acabam por omitir partes importantes. Coisas que não acontecem com o auxílio de alguém com experiência no assunto.
@Eberson Quando você fala de tal fluxo não é o fluxo real, concordo com você. Infelizmente em nosso meio temos muitas histórias de insucesso, não é mesmo? Muitas situações onde a falta de esclarecimento acaba ocasionando grandes problemas. Muitos desses casos acabam inclusive virando lendas, ou piadas... :)
A todos que comentaram até então, meu muito obrigado! ;)
Olá Julio,
Um dia num passado distante, ajudei a organizar um evento em Floripa com o Bruno Souza, e no final do evento, uma pessoa fez essa mesma pergunta a ele. Se vale a pena fazer um curso. Ele pensou e respondeu:
- Vou vender um livro para você que vira com uma coisa que nenhum outro tem: Tempo para você ler.
Acredito que qualquer pessoa é plenamente capaz de aprender todo o assunto apenas com a literatura existente e os dados que tem na internet. Mas a curva de aprendizado e o tempo a ser colocado nisso é bem maior que o luxo que podemos dar a isso.
Pelo menos, fazendo um curso, terás [em média] 8 horas semanais exclusivas para o seu aprendizado.
Olá Glaucio, tudo bem?
Quanto ao hábito de ler um livro, é difícil reservarmos um tempo como você mesmo disse. Eu procuro ler enquanto estou no metrô, por exemplo. Porém, é um exercício que se torna um prazer imenso quando não há mais esforço no fazer. Eu sou um leitor do tipo viciado, estou sempre lendo algo...
Também acredito que todos são capazes de aprender tudo sozinhos. Porém o esforço é muito maior, e acabam desistindo pela desmotivação em função da falta de resultado(conhecimento, nesse caso) dentro de um determinado prazo. Sabemos que sempre é mais fácil com um curso, certo? :)
Obrigado pelo comentário!
Depois de todos estes comentários da até medo de comentar alguma coisa... mas, vou adicionar um ponto que considero importante : Minicursos gratuitos, eventos e palestras.
Além de todos os fatores já mencionados, uma das coisas importantes no processo de aprendizado guiado, com instrutor ou professor são as "doses de motivação" que o aluno recebe vendo os olhosos do instrutor brilhar, as histórias e muitas vezes certo sucesso do instrutor.
Sem motivação é dificil encontrar tempo na vida corrida para ler, estudar e praticar.
Se você está precisando de destas "doses de motivação", ou quer uma informação direta, com exemplos e teoria apresentada por um bom instrutor, vale muito a pena participar dos minicursos e eventos, gratuitos que oferecemos semanalmente, são DIVERSOS temas super interessantes, sem propaganda, com conteúdo e instrutores excelentes.
Se você olhar os depoimentos de quem participa dos eventos gratuitos, como o OpenTDC que agora está sendo levado a Florianópolis (http://www.thedevelopersconference.com.br/opentdc/2009/floripa/index.seam) pela V.Office, Globalcode e Grupo de Usuários Java de Santa Catarina, vai perceber do que estou falando, quanto vale uma boa dose de motivação num processo de aprendizado ?
Veja algumas fotos e depoimentos:
http://www.thedevelopersconference.com.br/opentdc/2009/sp/index.seam
Não tem motivo para não participar dos minicursos gratuitos... mesmo se você não mora em uma das cidades que tem Unidades Globalcode pode participar dos minicursos gratuitos promovidos pela V.Office via internet!
Um abraço e bons estudos, livros, minicursos e cursos para vocês... e lembrem-se: DESENVOLVEDOR JAVA ESTÁ EM ALTA NO MERCADO, pela Computer World :
http://computerworld.uol.com.br/carreira/2009/07/23/desenvolvedor-java-esta-em-alta-no-mercado/
Yara,
O papel de um minicurso ou palestra é dar uma visão geral e rápida a respeito de um assunto, abordando os principais pontos. É, sem dúvida, uma forma de ensino que guia e introduz o espectador em um tema. Eu mesmo fui aluno de um minicurso da Globalcode antes de ser instrutor, e posso dar meu testemunho: o Dr. Spock foi muito direto, claro e preciso ao falar sobre Spring na situação. Não houve propaganda no mini-curso, o que me passou uma sensação de integridade por parte da empresa naquele momento. Esses, entre outros, são motivos do meu orgulho de fazer parte desse time, mesmo que esteja começando há pouco tempo.
Um instrutor não é somente responsável pela facilitação de transmissão de conteúdo, eu vejo ele como um profissional experiente que pode argumentar com propriedade sobre determinada tecnologia. Sem religiosidade, apenas com casos concretos e estatística, é possível provar ao invés de evangelizar... Ou melhor: acreditamos tanto no que fazemos e nos resultados, que o entusiasmo acaba sendo confundido com evangelização! :)
Mal posso esperar o próximo TDC! Pelo conteúdo e nomes apresentado nos anteriores, como diria o Vinícius, "vai bombar"! :)
Olá,
Não quero criar polêmicas mas essa discussão me remete ao velho questionamento de o que veio primeiro, o ovo ou a galinha.
Todo treinamento é fruto de uma confecção organizada e minuciosa sobre um tema específico cuja pesquisa tem como fontes de informações todos os meios de divulgação de conhecimento disponíveis (livros, internet e etc.) decorado com a vivência profissional de seus colaboradores e temperado com a habilidade didática do instrutor. O valor desse conjunto é inquestionável e louvável.
Mas dinâmica atual da tecnologia é voraz (e até de certa forma ingrata). Em muitas ocasiões, o profissional de hoje se depara em situações onde não lhe é permitido o luxo da espera. Isto é comum em áreas de pesquisas ou projetos que envolvam inovação ou tecnologias emergentes. O treinamento formal e profissional é, por questões de viabilidade económica, fundamentado em tecnologias bem estabelecidas e reconhecidas.
Todo profissional que preza pela sua carreira tem sempre que levar seriamente em consideração o seu aprimoramento utilizando-se de todos os tipos de recursos disponíveis.
Independente de qualquer forma, mantenho na mente uma frase de um velho amigo que costuma dizer que se ao menos um único parágrafo de um livro lhe trazer qualquer enriquecimento, esse investimento já o recompensou.
Olá Bene!
Excelentes observações! Todo conhecimento útil é importante, independente como foi adquirido, sem dúvida!
Toda forma que auxilia o aprendizado é válido. Por mim os dois DEVEM ser usados.
Bom dia Júlio!
O dinamismo e experiência do professor combinados com a teoria dos livros acrescentam muito para o desenvolvimento do aprendizado.
Estudo através de livros e revistas, por não encontrar cursos em horários compatíveis. Tenho aprendido bastante mas sempre fico em dúvida se estou no caminho certo, por que nem sempre o mercado exige o que está nos livros, e o professor 'supre' essa necessidade compartilhando sua experiência.
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